Este é um artigo “histórico”, pois relata uma viagem de 1992. Viajamos em uma Kombi VW, uma daquelas vans que pareciam uma geladeira deitada de lado, o tipo de veículo que os hippies invariavelmente usavam nos filmes americanos. Isso não muda o fato de que a XI Região do Chile, com sua beleza natural, quase intocada na época, é um dos lugares mais bonitos da América do Sul. A viagem foi repleta de geleiras, lagos, rios, fontes termais, montanhas, vulcões, florestas tropicais, neve, fiordes, ilhas e mar. É uma façanha encontrar tudo isso em um trecho de 400 quilômetros. Abaixo está …
Este é um artigo “histórico”, pois relata uma viagem de 1992. Viajamos em uma Kombi VW, uma daquelas vans que pareciam uma geladeira deitada de lado, o tipo de veículo que os hippies invariavelmente usavam nos filmes americanos. Isso não muda o fato de que a XI Região do Chile, com sua beleza natural, quase intocada na época, é um dos lugares mais bonitos da América do Sul. A viagem foi repleta de geleiras, lagos, rios, fontes termais, montanhas, vulcões, florestas tropicais, neve, fiordes, ilhas e mar. É uma façanha encontrar tudo isso em um trecho de 400 quilômetros. Abaixo está o relato dessa jornada.
8 de janeiro de 1992 – Saímos de Trelew bem cedo esta manhã, rumo ao sul. O tempo estava nublado e com alguma chuva. Antes de chegarmos a Comodoro Rivadavia, ficamos sem gasolina. Fiquei muito feliz quando, depois da curva onde ficamos, encontrei um posto de gasolina. Voltei quase imediatamente e continuamos a viagem felizes em nossa Kombi VW. Antes de Colonia Sarmiento, já seguindo para oeste, almoçamos e, com um forte vento contrário, típico da Patagônia, chegamos a Río Mayo. É uma cidadezinha encantadora, aninhada em um vale no planalto patagônico. Ali, começou a estrada de terra batida, e passamos a noite ao longo dela, perto de Ricardo Rojas, bem próximo à fronteira.
9 de janeiro de 1992 – Passamos por Aldea Beleiro e concluímos os trâmites fronteiriços. A descida em direção a Coyhaique foi por uma paisagem cada vez mais bela. Coyhaique nos surpreendeu com seu tamanho; não esperávamos encontrar uma cidade com 40.000 habitantes. Almoçamos de frente para a praça, que, curiosamente, tem cinco lados. O cardápio: sopa de ervilha, um ensopado com carne muito saborosa e nougat de vinho de sobremesa. Passeamos um pouco pelas vitrines da rua principal e depois subimos até a reserva florestal “Laguna Verde”. É um lugar tranquilo onde estamos decidindo para onde ir em seguida, enquanto o sol se põe sobre a cidade.
10 de janeiro de 1992 – Viajamos pelo vale do Rio Simpson até Puerto Aysén. A paisagem, com seus rios, cachoeiras, neve e vegetação exuberante, era belíssima. Paramos para tomar mate na Cachoeira da Virgem, bem à beira da estrada. Chegamos cedo a Puerto Aysén, exploramos a cidade e, depois de comprar alguns mantimentos, fomos a Puerto Palos para acabar com as compras, com sua vista para o mar. À tarde, fomos a Puerto Chacabuco para nos informar sobre a possibilidade de pegar um barco para a Laguna San Rafael, o lugar mais espetacular da região. A empresaTransmarchilay só começa no dia 18, então pegaremos a balsa RoRo Evangelistas. (RoRo: roll on – roll off) Retornamos a Aysén. Seguimos o Rio Blanco, o rio mais verde e oleoso que já vi, simplesmente lindo. Estacionamos em uma pequena praia perto do Lago Riesco. Testei alguns equipamentos de pesca simples que comprei ontem, mas os salmões não se interessaram. Os pássaros cantavam e voavam ao redor, e uma lebre se divertia me observando bem de perto enquanto eu me esforçava, agachado, entre alguns arbustos.
11 de janeiro de 1992 – Acordamos às 6h, ansiosos para chegar a Puerto Chacabuco e embarcar no barco para as Termas de Chiconal. Embarcamos no L/M Patagonia às 9h30, porque aqui nunca há pressa. Enquanto navegávamos pelo fiorde, o sol começou a brilhar. “O primeiro dia desde novembro”, disse o timoneiro. Chegamos às termas. Entre samambaias, juncos e lengas, encontramos as piscinas naturais onde pudemos relaxar. Há várias, o suficiente para cada casal ou família ter a sua. O lugar é lindo e tranquilo, e temos duas temperaturas de água diferentes para escolher. Voltei para tomar um banho de sol no convés do barco. Vamos dormir em algum lugar, não sei, com vista para o Lago Riesco.
12 de janeiro de 1992 – Compramos nossas passagens para a Laguna San Rafael. Assistimos ao show da polícia no coreto da praça e, depois de comermos enormes empanadas chilenas, passamos o resto do dia com os pés na água, em uma curva do Rio Simpson. Hoje à noite, às 23h, nós três (Gloria, a Kombi e eu) embarcaremos no RoRo Evangelistas.
13 de janeiro de 1992 – Cansados de esperar, embarcamos por volta das quatro da manhã. Por sorte, nos serviram almoço, uma deliciosa torta de milho. Dormimos algumas horas na Kombi, que era mais confortável do que os assentos da balsa, e depois do almoço, entramos na lagoa. Icebergs pequenos e médios flutuavam ao nosso redor, e a vista da geleira era magnífica. Dois barcos foram rebocados pela rampa da balsa pelos tratores que prestam serviço no porto. Os dois botes salva-vidas também foram lançados, presumivelmente para agilizar o passeio na geleira. Finalmente, partimos nos quatro barcos, com cerca de quarenta passageiros em cada um. Navegamos entre os icebergs e nos ofereceram uísque com gelo envelhecido (um pouco salgado, para ser sincero). Na viagem de volta, a rampa serviu novamente como cais. Segundos depois de retornarmos, éramos os primeiros a chegar, com pessoas correndo em pânico, enquanto nós estávamos mais longe, sem entender nada. Um iceberg atingiu a rampa (ou melhor, a Evangelistas atingira o iceberg), deslocando-a da dobradiça de bombordo e amassando-a ligeiramente. Ninguém ficou ferido, mas os outros passageiros tiveram que esperar mais de uma hora para embarcar na Evangelistas por uma passarela lateral. Os dois barcos a motor permaneceram no refúgio da CONAF. Hoje comemos um delicioso salmão rosa. Dormimos na van.
14 de janeiro de 1992 – De manhã, ficamos sabendo que desembarcaríamos às 18h, assim que a rampa fosse consertada. Mas às 10h, equilibrando-nos em algumas tábuas sustentadas por um guindaste, pousamos a Kombi em terra. Sãos e salvos.
15 de janeiro de 1992 – Enquanto escrevo, contemplo Puerto Cisnes. Hoje, atravessando a floresta tropical virgem, chegamos à espetacular ponte sobre o rio Cisnes. Parece que todos os rios da região têm um vibrante tom verde-esmeralda. Jantamos na margem do rio depois de deixarmos a Carretera Austral e virarmos em direção a Puerto Cisnes. Chegamos à tarde: compramos carteiras artesanais feitas de couro de congro, pescada e garoupa. Também compramos, a um preço imbatível, uma “frezada”, como Dona Otilia, a artesã, a chamava. Por fim, compramos gasolina a granel na casa de uma família. E agora vemos a pequena cidade de uma baía próxima. Hora de dormir.
16 de janeiro de 1992 – Voltamos à “Rodovia Sul Augusto Pinochet Ugarte”, um nome realmente horrível. Encontramos o morro Queulat Sur coberto de lama, não por causa da chuva, mas sim por obras na estrada. Vários caminhões estavam parados. A pedido de um gaúcho loiro que também esperava a estrada ser liberada, experimentamos os talos das “nalcas”. Boas para saladas, até então as chamávamos de “abóboras”, por causa do formato. Não por causa do tamanho, porque se as nalcas tivessem abóboras, seriam do tamanho de um Fiat 600. A motoniveladora chegou e, derrapando, subimos o morro. E descemos o outro lado, o morro Queulat Norte, é claro. Em seguida, chegamos à incrível Geleira Suspensa. É visível de longe, impressionante, linda e com duas cachoeiras imponentes que despencam do gelo. À tarde, percorremos os poucos quilômetros restantes até Puyuhuapi. Uma fábrica de tapetes que exporta tapetes deste local inusitado. Teares de madeira, uma oficina de carpintaria — o alemão Hopperdietzel teve muita imaginação para montar tudo isso neste lugar. Voltamos alguns quilômetros; vamos dormir no cais para as Termas de Puyuhuapi, que visitaremos amanhã. O Concerto para Oboé de Handel toca no aparelho de som, e as águas cintilantes e tranquilas do Fiorde de Queulat estão à vista. Há pouco tempo, o maior zangão que já vi estava zumbindo ao redor da kombi.
17 de janeiro de 1992 – Dia nas águas termais. Passamos o tempo todo em uma piscina a 41°C, sob samambaias gigantes. O hotel, como tudo por aqui, é inteiramente construído em madeira. Hospedar-se aqui não é exatamente barato. À tarde, o barco nos levou de volta ao cais e chegamos a Las Juntas. Não paramos e pegamos a estrada principal para o Lago Rossellot, o que incluiu atravessar o rio em uma jangada de madeira. Dormiremos com vista para o lago.
18 de janeiro de 1992 – Descer da jangada e subir o morro foi complicado; a Kombi não parava de escorregar. Com pedras e paciência, conseguimos. Compramos mantimentos em Las Juntas. Agora, às duas da tarde, estamos comendo algo às margens do Rio Frío, logo depois da ponte. Não sabemos o que faremos mais tarde. Naquela noite: No acampamento abandonado perto da Ponte Ventisquero. Um grupo de crianças de bicicleta passou por nós. O pai de uma delas, em uma caminhonete, parou para conversar. Militar e mentiroso, ele tentou nos convencer de que as crianças tinham vindo de Santiago — em uma semana! — que ele não era militar e um monte de outras bobagens. Ele está criando o filho com essa história de “subordinação e coragem”. Coitado. Também conversei com dois ciclistas viajantes; aqueles moços eram muito divertidos.
19 de janeiro de 1992 – Trechos curtos. O primeiro, três quilômetros. Paramos para coletar água mineral que brota a poucos metros da estrada. Tem gosto de refrigerante, uma curiosidade. Outro trecho curto e chegamos a Puerto Cárdenas, às margens do Lago Yelcho. Atravessamos o rio de mesmo nome por uma nova ponte suspensa. Em nossa viagem anterior, atravessamos de balsa motorizada. Um pouco mais adiante, um desvio para as termas do Rio Amarillo. Um ótimo banho com sabonete e xampu. Entre as bolhas e a espuma, nos ocorreu que poderíamos deixar o carro em Chaitén e continuar a pé até Puerto Montt. Evitaríamos o longo e conhecido desvio por Osorno e Bariloche. Agora estamos no camping Los Arrayanes, com o vulcão Corcovado à vista. 20 quilômetros ao norte de Chaitén. Comemos pizza caseira; precisa de molho de tomate.
23 de janeiro de 1992 – Na tarde do dia 20, vimos o MN Calbuco partir e, logo depois, embarcamos na balsa Mailén, com destino a Pargua. O espaço era escasso e havia muitos passageiros. Dormimos no chão, cercados por corpos, pernas e braços de outras pessoas. Foi horrível. Em Pargua, nossa sorte melhorou e conseguimos entrar em um ônibus fretado por moradores de Chiloé. Dormimos até chegarmos a Puerto Montt. Depois de uma breve busca, nos instalamos no “luxuoso” Residencial Temuco, que, por cerca de cinco dólares, nos ofereceu um quarto no terceiro andar (acessível por escadas) e um banheiro compartilhado no segundo. Fizemos compras e almoçamos no Angelmó. Pronuncia-se Angelmó. Ensopado de frutos do mar para mim e salmão com batatas fritas para Gloria. Compramos passagens no Calbuco, segunda classe. Prometeram-nos 14 horas de viagem em assentos duros. Comemos cachorro-quente em algum lugar e apreciamos a cama bastante dura do hotel. Na manhã do dia 22, embarcamos no Calbuco. Um pouco sujo e decadente, mas com boas poltronas reclináveis na primeira classe, que todos usamos como se tivéssemos pago por elas. Ancoramos em Ayacara durante a sesta, onde alguns passageiros desembarcaram. No final da tarde, chegamos a Chaitén, muito antes do planejado. Recuperamos a kombi e dormimos no camping. Hoje dirigimos até Caleta Gonzalo, estrada muito dura, e dormiremos aqui, no meio do nada, a meio caminho de volta para Chaitén.
25 de janeiro de 1992 – Ontem de manhã compramos mantimentos e bastante cerveja. Estamos instalados no acampamento abandonado de Ventisquero, que tanto apreciamos em nossa estadia anterior. Hoje passamos o dia indo até a geleira, fazendo uma caminhada adorável pela margem do rio, e conversando com Patricia e Sergio, um casal argentino de quem gostamos.
28 de janeiro de 1992 – Perto da fronteira. Às margens do rio Espolón, perto de Futaleufú, Chile. Anteontem, saímos do nosso querido acampamento Ventisquero, atravessamos o Passo Moraga e chegamos a Santa Lucía, sem nada de interessante. Almoçamos em Puerto Piedra e, na Ponte Futaleufú, tomamos mate tranquilamente, observando a água fluir. Fizemos um desvio até o Lago Espolón, mas não nos interessou muito, e finalmente nos instalamos neste acampamento, às margens do rio Espolón. Ontem, compramos mantimentos na pequena, charmosa e pacata cidade de Futaleufú e passamos o dia tomando sol e nadando no rio, que é bem mais quente que os outros da região. Talvez amanhã atravessemos a fronteira e, via Esquel, voltemos para casa, em Trelew, de onde partimos há um mês.